A musicalidade de Don L
Caio Lacerda Leite
Direito, 4º ano
É difícil saber com precisão como o movimento do Hip-Hop do Nordeste se originou. Provavelmente, com a chegada dos discos de Racionais e Sabotage no final da década de 80 e na década de 90 nas comunidades das capitais nordestinas, grupos começaram a surgir. Após essa fase, o movimento se desenvolveu, desembocando no disco homônimo de estreia do grupo Faces do Subúrbio, em 1997, e futuramente na indicação deles ao Grammy Latino, em 2001. Entretanto, foi apenas com o lançamento da mixtape Sexo, Drogas e Violência, em 2007, do grupo Costa a Costa, que foi possível aglutinar o Gangsta rap ao rap nordestino, de forma que a região se tornou referência no cenário nacional.
O Costa a Costa era formado por Carlos Gallo (Nego Gallo), Flip Jay, Preto B, Júnior D e Gabriel Linhares da Rocha, popularmente conhecido como Don L. Nascido em Brasília, no ano de 1986, mudou-se para Fortaleza aos 4 anos, carregando o sotaque e gírias da cidade. Desde muito novo, Don L sempre foi fascinado em conhecer o mundo, e isso fez com que ele decidisse sair de casa aos 16 anos. Esse foi o empurrão que o jovem precisava para conhecer o rap, em 2005, nas rodas de improviso de Fortaleza, absorvendo toda aquela vivência das ruas cearenses e o estilo de vida do Gangsta Rap.
Por ter dificuldade em se expressar socialmente, Don encontrou no rap um meio de transmitir suas ideias através da poesia. Em entrevista cedida à revista Trip em 2018, ele conta: “Em 2007, Fortaleza era uma cidade que estava vindo do movimento funk. O hip hop surgia para mim como uma possibilidade de espaço de fala, eu não me encontrava em nenhuma outra música, a não ser aquelas feitas por afro-brasileiros em Salvador, como Olodum, Timbalada" (ARAÚJO, 2018).
Por esse motivo, no mesmo ano que conheceu o movimento, criou o grupo Costa a Costa, que trazia em suas letras gírias locais, autobiografias e uma forte personalidade nordestina. O principal trabalho do grupo foi a mixtape Sex, Drogas e Violência de Costa a Costa, que no ano de seu lançamento (2007) recebeu o prêmio Hutúz, o principal prêmio do Hip-Hop nacional, de melhor disco de rap do Nordeste e, em 2012, de melhor disco de rap do Nordeste da década.
Considerada atemporal, a mixtape, que foi produzida pelo próprio Don L, é composta de diversos ritmos nacionais e internacionais em seus samples como carimbó, samba, R&B e reggaetton. Narra a trajetória daqueles que vivem marginalizados numa condição de vulnerabilidade social, indicando como a falta de oportunidade pode fazer com que o crime seja uma saída para aqueles que caíram na tentação por dinheiro, sexo, drogas e violência, presentes de costa a costa na capital cearense. Apesar de as faixas se destacaram individualmente, possuindo uma singularidade, elas conseguem se manter coesas do início ao fim do trabalho.
O rapper diz que “a mixtape teve muito mais efeito concreto, de proporcionar carreiras e shows, no Sudeste do que no Nordeste. Para o rap nordestino, proporcionou um respiro. Muita gente estava desacreditada e viu que era possível” (ARAÚJO, 2018). Contudo, apesar de sua relevância, dos prêmios que recebeu e de hoje ser considerado um clássico, Sex, Drogas e Violência de Costa a Costa não se popularizou nos clubes nem alcançou junto ao grande público o mesmo reconhecimento que obteve da crítica.
Após isso, Don L passou a seguir carreira solo, se mudando para São Paulo em 2013, quando lançou seu primeiro trabalho fora do Costa a Costa, a mixtape Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L. Nessa obra, o rapper aborda diferentes temas, como a morte enquanto motivadora da vida e o modo como a consciência da finitude da existência nos permite experienciá-la “no limite”, tal qual, quando jovem, o artista buscou ao sair de casa, atrás de experiências.
Em Morra Bem, Viva Rápido, em meio a um sample que mistura a música Taboo, do artista de Lounge music, Les Baxter e instrumentos musicais de povos indígenas, Don L exclama: “Nóis tudo vive pra morrer, mas luta pela vida”. A letra, escrita em uma cama de hospital após um grave acidente, (Medeiros, 2021) expressa seus sentimentos de impotência, tédio, insatisfação e a vontade de trabalhar muito para alcançar todos os seus objetivos.
O artista utiliza-se de diversos recursos em Caro Vapor. Em “Rolê dos Loko”, o artista aparece com um “flow” (Medeiros, 2021) que dá um ar mais debochado e cheio de autoestima. Em Nem Posso Dizer, as rimas são produzidas por meio do sotaque cearense, usado para flexionar a pronúncia de palavras que não rimariam normalmente como em: “Não é a vitória que cê quer? Então brin/da
Peça, lute com fé, irmão, vi/va
É, esse mundo tem mulheres tão lin/das
Que/ro-as, tudo em pé/ro/las, fil/ma
Rosas em Je/ri, fé/rias em Pi/pa
É sim, no estilo né, fí? Vi/da
É, esse mundo tem cores tão vi/vas
Porque seus sonhos são todos tom cin/za?”
A exemplo da obra do Costa a Costa, Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L passa por diferentes gêneros: Disco, Blues, Jazz, Baladas calmas, Rock e muitos outros. Isso, somado à sua produção e técnica de rima muito à frente de seu tempo, provocou um enorme fascínio entre o público mais assíduo de rap, apesar de não ter refletido no consumo em larga escala, devido aos holofotes estarem voltados ao eixo Rio-São Paulo.
Essa situação começou a mudar somente quando os rappers Baco Exu do Blues, da Bahia, e Diomedes Chinaski, de Pernambuco, lançaram o single Sulicídio, criticando a falta de visibilidade do Hip-Hop produzido fora do eixo. Essa música possibilitou que artistas de diferentes locais do país ganhassem visibilidade, mesmo que não fossem nordestinos, como é o caso do mineiro Djonga.
Isso permitiu que Don L chegasse ao grande público de rap com seu trabalho mais famoso, Roteiro Para Aïnouz, Vol. 3 (2017). Nesse seu primeiro álbum de estúdio, Don L faz críticas à cena do Rap, trazendo uma visão mais pessimista do mundo, em uma ambientação urbana e caótica. O álbum é o primeiro de uma trilogia às avessas, à qual veio se somar o Roteiro Para Aïnouz, Vol. 2 (2021).
Nesse momento, soa repetitivo falar do seu primor técnico nas rimas e na produção, ou das referências a diferentes gêneros musicais. Então, o que observamos nesse trabalho é uma obsessão pela perfeição da música. Se em 2013 ele já falava: “E se eu não for seu rapper favorito, eu provavelmente sou o favorito do seu favorito”, em Roteiro Para Aïnouz, Vol. 3, o MC se encontra em seu auge, fazendo um trabalho minucioso, se utilizando do silêncio e do erro para expressar os seus sentimentos.
No final da faixa Aquela Fé, enquanto ele canta: “de volta ao motivo, não", o pianista erra de propósito o ritmo da música, tocando-a mais rápido e para. Nesse momento, Don L fica por um espaço de tempo em silêncio e volta ao verso anterior, cantando: “de volta ao motivo do motivo”, seguindo a música normalmente. Assim, se utilizando do erro, o artista mostra seu sentimento de necessidade de que sua obra esteja perfeita.
No segundo álbum da trilogia: Roteiro Para Aïnouz, Vol. 2, o rapper traz um lado “muito mais guerrilheiro que MC”, tocando em temas mais políticos e propondo uma espécie de revolução.
Don L cunha a expressão “Hip-Hop de terceiro mundo”. O que ele e outros artistas do chamado Rap Nacional fazem seria “Rap americano em português”. Já o Funk carioca, por exemplo, seria o Rap brasileiro. Assim, ritmos como Reggaeton e Kuduro seriam expressões terceiro-mundistas do Hip-Hop, caracterizadas pelo menor grau de complexidade e por seu foco no entretenimento.
Desse modo, podemos afirmar que Don L compreende a música popular do Terceiro Mundo como uma síntese de músicas europeias, ameríndias, negras e, no caso dele, norte-americana, que narram a realidade das periferias. Além disso, mesmo sendo um artista que busca a todo custo a perfeição, segue a orientação de Mário de Andrade, empregando melodia popular sem achar que isso empobreceria a expressão.
Notas
(1) “Gangsta rap (ou gangster rap, inicialmente conhecido como reality rap) é um subgênero da música hip hop que surgiu em meados dos anos 1980 como um subgénero distinto mas altamente controverso do rap, cujas letras afirmam a cultura e a realidade das ruas e dos subúrbios, às vezes com um estilo gangster e valores típicos das gangues de rua” - https://pt.wikipedia.org/wiki/Gangsta_rap
(2) “Sample nada mais é do que a amostra de sons, sendo eles trechos (ou partes inteiras) de músicas já existentes, instrumentos de forma isolada ou até sons do “dia a dia”, como o trem passando nos trilhos, uma buzina ou a chuva no telhado” - https://kondzilla.com/m/explicando-em-detalhes-o-que-e-sample
Referências
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SANTOS, Maria Aparecida Costas dos. O Universo Hip-Hop e a fúria dos elementos. São Paulo. 2017
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