As dualidades da música brasileira e Caetano Veloso como importante exponente dessa composição

 Emily Costa Diniz

Direito, 2º ano

O presente verbete pretende compreender e destacar a importância do cantor Caetano Veloso no panorama da evolução da música popular brasileira, especialmente no que tange às suas ambiguidades e seu caráter revolucionário. Para isso, inicialmente será feita uma breve análise acerca dessa linha do tempo, para posteriormente ser posto em pauta o artista e o movimento do qual ele fez parte.

1.     Discussões dicotômicas da música brasileira

A linha evolutiva da música brasileira foi se desencadeando por meio de diversas dicotomias e debates. Nesse primeiro momento, será abordado quais são essas dicotomias e seus principais pontos de discussão e, posteriormente, nos itens 2 e 3 desse artigo, como e quando elas se manifestaram na história da música brasileira.

Assim, veremos a contraposição nacional vs. estrangeiro, evidenciada no movimento Modernista e trazendo debates como "o embebedamento pela cultura europeia" e a crítica ao exotismo. Também, a oposição entre tradição (manutenção do passado) vs. vanguarda (inovações disruptivas). Ou ainda, como é dito na Teoria da Informação, redundância (repetição de fórmulas, maior previsibilidade) vs. informação (compromisso com o novo e com a quebra de previsibilidade).

E, por fim, falaremos a respeito da polaridade música erudita vs. música popular, que, de acordo com Augusto de Campos, se diferenciam na medida em que a primeira, por não possuir compromisso com o consumo de massa, torna-se verdadeiro laboratório artístico para a música de vanguarda, que acrescenta uma taxa significativa de informação em seu discurso. Enquanto isso, a segunda seria, antes de mais nada, um produto industrial que serve à interesses mercadológicos, gerando um sistema redundante e estagnado de expressão.

2.     O legado Modernista: nacionalismo e vanguarda

O movimento Modernista, iniciado formalmente na Semana de 22, foi o estopim para o que futuramente viria a ser uma busca pelo folclore brasileiro, pela identidade nacional, a “brasilidade”. Apesar de possuir maior destaque na literatura, foi um movimento que permeou as mais variadas formas de arte, desde a pintura e a escultura, até a dança e a música. Sua essência estava no ímpeto de romper com as tradições passadas e desenvolver um pensamento crítico. Há, então, uma tentativa de “desformalizar” a arte, negando métricas e padrões ao passo em que se aproxima da espontaneidade e da linguagem popular. Ainda, foi adotada a ideia de “Antropofagia”, com o aceitamento de uma inspiração estrangeira, essa que seria deglutida e regurgitada como algo novo e brasileiro, que valorizasse temas cotidianos e nacionais.

Nessa toada, autores importantes como Mario de Andrade, em sua obra “Ensaio sobre a música brasileira”, e Oneyda Alvarenga, em “Música popular brasileira”, discutem o que seria e como teria se originado a música verdadeiramente brasileira. A conclusão, em suma, apontou para o entendimento de que somos um povo deveras miscigenado, de forma que não se pode atribuir a apenas uma de nossas etnias-formadoras a brasilidade de nossa arte, nem mesmo aos ameríndios.

Então, como dizer “isto é brasileiro”? Bom, a identidade nacional, para estes autores, seria tudo aquilo que reconhecemos intimamente como nosso. A arte nacional já estaria formada no inconsciente do povo, como uma percepção intrínseca de identificação.

Dessa forma, compreende-se a música brasileira como fruto da miscigenação e originária do próprio pensamento popular, e não de um purismo exótico de aproximação ao ameríndio, podendo, portanto, se valer de elementos estrangeiros em sua formação, assim como ocorre nas mais diversas culturas mundo a fora, sob pena de não existir qualquer tipo de arte nacional para país algum, pois todos são produtos de migrações e adotaram instrumentos e estilos de outros povos em sua arte.

3.     Tradição e vanguarda na música erudita e na música popular brasileira

Passada a Semana de 22 e continuando os debates já levantados por lá, surgem na frente de vanguarda da música erudita brasileira dois movimentos de destaque, a Declaração de Princípios do grupo Música Viva (1939 – 1948) e o manifesto do grupo Música Nova (desde 1963, do qual fazia parte Rogério Duprat, futuro e principal arranjador da Tropicália). Ambos os grupos foram propulsores de uma força inovadora, todavia, o primeiro deles se valia de formas musicais que iam de encontro com os ideais nacionalistas anteriormente expostos por Mario de Andrade, levando ainda o compositor Camargo Guarnieri a escrever, em 1950, a Carta Aberta aos Músicos do Brasil, defendendo uma criação nacional fundada na música folclórica e popular, ou seja, baseada na tradição, enquanto Koellreutter (líder do grupo Música Viva) propunha uma música vanguardista mais internacionalista.

Já na música popular pátria, foco desse artigo, os movimentos que estariam na linha de frente, com uma maior carga de informação e imprevisibilidade, foram, segundo Augusto de Campos, a Bossa Nova, – que introduziu a dissonância na música brasileira, destoando e quebrando com a harmonia tradicional da canção popular ocidental –, em 1958, e a Tropicália, em 1968. Porém, para Campos, com o passar do tempo a Bossa Nova deixou de ser informativa e tornou-se redundante, cabendo ao Tropicalismo uma retomada da linha evolutiva da música popular brasileira, ultrapassando a dicotomia dissonância vs. consonância e adentrando o conflito ruído vs. som, da metalinguagem e da ruptura entre os liames bem definidos da música erudita para com a música popular.

Segundo Tragtemberg, o tropicalismo não teve como ponto de partida a bossa nova, pois a evolução não se deu de forma necessariamente linear, mas sim como uma reavaliação da cultura brasileira num geral, retornando a padrões redundantes anteriores à bossa nova, mas acrescentando arranjos carregados de informação, gerando um equilíbrio. Deu-se início ao Brasil eletrônico, com a utilização de guitarra-elétrica e incorporando elementos tanto do folclore brasileiro quanto internacionais.

Capa do álbum “Tropicália”

4.     Caetano Veloso e o Movimento Tropicalista

Em outubro de 1967, em plena ditadura militar, no III Festival de MPB da TV Record, a grande aceitação das canções “Alegria, alegria” de Caetano Veloso e “Domingo no Parque” de Golberto Gil, impulsionam o lançamento, em março de 1968 – ano que pode ser considerado um verdadeiro divisor de águas no cenário político, social e cultural brasileiro –, dos LPs individuais destes dois artistas e, em junho do mesmo ano, da banda Os Mutantes. Esses três LPs foram responsáveis por alavancar a produção do álbum que viria a ser o disco-manifesto do novo movimento musical que tomava forma no Brasil, o Tropicalismo. A produção contou com a participação de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Gosta, Nara Leão, Tom Zé, Os Mutantes e Rogério Duprat, unindo compositores de música popular e de música erudita de vanguarda.

O Tropicalismo como movimento e, especialmente, Caetano Veloso como artista, se destacaram não somente em razão da ambiguidade de sons que traziam, mas em grande parte também em razão da verdadeira revolução comportamental que geraram no ápice da ditadura e da repressão no Brasil. O primeiro choque gerado pelo artista fora na apresentação de “Alegria, alegria” mencionada acima, que fora como uma espécie de marcha pop que mostrava as experiências dos jovens urbanos, apresentando marcas que, conforme Favaretto, “iriam definir a ação dos tropicalistas: uma relação entre fruição estética e crítica social” (1979, p. 8). Nessa performance, o cantor apresentou-se em roupas estravagantes para a época – na qual vigorava a ideia de completa isenção do homem na moda –, com o abuso de cores e de elementos andrógenos, o que viria a ser o princípio de suas ações subversivas em questões de gênero e sexualidade.

III Festival da Música Popular, outubro de 1967. Foto: Morales. Correio da Manhã

Assim, segundo Santuza Ribeiro, em 1968,

 

“[…] essa mudança comportamental adquiriu um caráter de agressão muito grande para as pessoas que constituem a maioria silenciosa, nem sempre tão silenciosa, não é? Mas o Caetano e o Gil… eles foram além dos hippies, que deixavam crescer os cabelos, porque eles usavam roupas que não eram admitidas para um homem usar. Aquelas coisas todas que eles faziam, tudo aquilo só era extremamente agressivo, extremamente desafiador. Houve uma revolução comportamental. Tanto que eles foram presos e expulsos talvez até mais pelo aspecto comportamental do que pelo aspecto ideológico. (Ribeiro, 1988, pp. 34-35 apud MARCONI).

 

Porém, mesmo dentro do Movimento Tropicalista, Caetano se diferenciava dos demais artistas da época, o que pode ser elucidado pela leitura do seguinte apontamento feito por Maria do Carmo Teixeira Rainho:

 

Assim como as de Chico Buarque, Geraldo Vandré e Edu Lobo, suas canções contrariavam o regime político. Tal qual Roberto e Erasmo Carlos, o artista se vestia com roupas da moda, abusava de cores e estampas, ousava em termos estéticos e visuais. Mas, diferentemente de todos, desafiava a ditadura militar subvertendo igualmente letras, músicas, repertórios de gênero, padrões de comportamento associados ao masculino/feminino. Uma das potências de Caetano Veloso foi – e, pode-se dizer, é ainda hoje – a capacidade de mostrar que estética e política podem ser uma e a mesma coisa. (2014, p. 13)

 

Show Transa. Rio de Janeiro, novembro de 1972. Correio da Manhã.

 

5.     Reinterpretando “Billie Jeans”, “Eleanor Rigby” e “Nega Maluca”

Apesar de já não mais fazer parte do período de vigência do tropicalismo, essa performance do cantor realizada no Programa Caetano e Chico, em 1986, demonstra com maestria a excentricidade e ambiguidade de Caetano, revolucionário por natureza. Nela, o artista apresenta um cover que mistura as três músicas mencionadas (Billie Jeans, Eleanor Rigby e Nega Maluca) com um quê bem brasileiro.

Assim, misturando em ritmo de bossa nova uns dos maiores hits da época à um antigo samba brasileiro, temos como resultado uma verdadeira prova da engenhosidade e natureza dicotômica do artista, que com frequência se apropriava do repertório de terceiros, inclusive aqueles que eram tidos como “ruins”, “das massas”, gêneros considerados menores ou esteticamente inferiores, como por exemplo a inferiorização da música Brega e Caipira em detrimento do Samba. Sobre isso, Caetano novamente surpreende e se valeu também do repertório do cantor brega Peninha.

6.     Conclusão

Nessa jornada repleta de polarizações que foi a evolução da música brasileira, com a incessante busca pelo nacional, junto da luta entre ímpeto de inovar em contrapartida com as tradições vigentes, notória a importância dos tropicalistas e, principalmente, de Caetano Veloso para dar novos significados à música popular brasileira, artista esse que de tão ambíguo desagradava à grupos tanto de direita, quanto de esquerda – que acreditavam que a utilização de elementos estrangeiros, como a guitarra elétrica, descaracterizava o nacional popular. Inclusive, a canção “É proibido proibir”, de Caetano, na verdade foi muito mais uma crítica à própria esquerda no que diz respeito a essas limitações e proibições de como se produzir uma música com brasilidade. Assim, o artista mostra sua notoriedade exatamente ao desafiar padrões e fundir elementos que até então não se combinavam, marcando a história brasileira.

7.     Referências

7.1.         Fontes primárias

Caetano Veloso: Nega Maluca, Billie Jean, Eleanor Rigby. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=N_rPjLjABe8>.

Caetano Veloso: Alegria, alegria.

João Gilberto: Desafinado.

7.2.         Levantamento bibliográfico

ALVARENGA, Oneyda. Música popular brasileira. 2ª Ed. São Paulo: Duas Cidades, 1982.

ANDRADE, Mário de. Ensaio sobre a música brasileira. 3ª ed. São Paulo: Vila Rica; Brasília: INL, 1972

CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa e outras Bossas. 2ª Ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.

FAVARETTO, Celso. Tropicália, alegoria, alegria. 3ª Ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2000.

MARCONI, Rodrigo. Tradição e vanguarda na obra “Acrilírico” de Caetano Veloso e Rogério Duprat. Revista Brasileira de Música, 2012.

Módulo do ensino integrado: língua portuguesa. São Paulo: DCL, 2002. p. 92-98.

RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Caetano Veloso: corpo, roupa e música desafiando a ditadura militar no Brasil. Revista Brasileira de Psicanálise. Volume 48, n. 3, 127-139. 2014.

 

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