Chico Science & Nação Zumbi - Monólogo ao pé do ouvido / Banditismo por questão de classe (1994)
Mayara Fernandez
Gestão de Políticas Públicas, 4° ano
Este verbete propõe uma análise sobre a trajetória músico-cultural da banda Chico Science & Nação Zumbi. Sabe-se que o nome Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ) é um dos mais conhecidos dentre os artistas oriundos de Pernambuco, aqui o que nos interessa identificar é o quão relevante foi o papel da banda na disseminação da cultura regional nordestina, especialmente pernambucana, e na revitalização e valorização da cultura local.
Contexto histórico e surgimento do manguebeat
A banda Chico Science & Nação Zumbi foi formada a partir da união da banda de pós punk Loustal com o bloco de samba reggae Lamento Negro, sob a liderança do compositor e vocalista Chico Science. Essa junção surge nos anos 90, em um contexto histórico, econômico e social de extrema relevância para a formação da banda. Temos, no início dos anos 90, expressões marcantes de uma redemocratização que deu os primeiros passos nos anos 80, uma verdadeira reorganização social quando comparada com as décadas anteriores vividas pela população sob governos militares. A cidade de Recife, por sua vez, se encontrava entre as dez piores cidades do mundo para se viver (ZERO QUATRO, 1992), na difícil busca por se tornar uma metrópole desenvolvida. Foi nesse contexto que surgiu o movimento manguebeat, lançado com o manifesto “Caranguejo com Cérebro” . O manifesto foi escrito em 1992 por Fred Zero Quatro, amigo próximo de Chico Science, jornalista e membro da banda Mundo Livre S/A. Seu texto é carregado de críticas sociais e ecológicas bastante radicais para a época, principalmente sobre a relação da cidade de Recife com o seu ecossistema mais representativo, o mangue: "O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários" (ZERO QUATRO, 1992). Essas críticas marcaram presença forte nas composições musicais do movimento manguebeat.
Com base no seu manifesto, manguebeat surgiu como um movimento de contracultura, levantando questionamentos e protestos frente a ordem estabelecida até então. Dentre os diversos nomes dentro do movimento, CSNZ se tornou um dos mais populares. Tendo como público alvo jovens periféricos e de classe média de Recife, o grupo alavancou a cena do manguebeat na cidade. Segundo João Evangelista Neto, da banda The Playboys,
[...]O mangue promoveu uma grande reviravolta cultural na cidade. No final dos anos 80 e início dos 90, a cena da música jovem estava restrita a pequenos bares como o ‘Pocoloco’ e o ‘Underground’. Existia uma cena, mas era um negócio muito limitado. Com Chico e o Manguebeat as coisas começaram a mudar. A cena cresceu bastante. Aumentou o público, o número de bandas, festivais, etc. Pessoalmente, eu admiro muito o movimento e compreendo a importância desses caras para a cultura brasileira.” (VARGAS, 2015: 74).
As produções musicais de CSNZ são extremamente características dentro do movimento manguebeat, carregadas de uma mistura cultural entre local e global, entre o tradicional e o pop, uma mistura de sons nordestinos (como coco, ciranda, alfaia, maracatu), com hip hop, rap, rock, samplers, sintetizadores, entre outros. O intuito nessa mistura não é atrair público a partir do uso de elementos mais conhecidos, mais mainstream, muito pelo contrário;
“A ideia é reconhecer os gêneros e usar o que apresentam de melhor para essas possíveis sínteses. O uso do elemento folclórico não ocorre de maneira secundária, coadjuvante, mas dá-se a ele uma posição ativa na medida em que o que é considerado como moderno perde sua face original.” (VARGAS, 2003: 8.)
A singularidade e qualidade das produções de CSNZ levou a banda a conquistar um contrato profissional, o que a permitiu produzir seu primeiro álbum de estúdio, Da lama ao caos (1994). Este teve ampla divulgação através de gravadoras, marcando presença em estações de rádios e em vinhetas de telenovelas. Não tardou para que a banda tivesse oportunidade de se apresentar internacionalmente, sendo reconhecida tanto pelo público quanto pela crítica (PARELES, 1997). Além de se tornar uma das atrações mais populares do manguebeat, a CSNZ também foi um catalisador de outros artistas pernambucanos, que não atingiam grandes públicos antes da cena mangue estourar em Recife.
Banda CSNZ posa em uma região de mangue, elemento nuclear do manifesto do manguebeat e das composições da banda. Fonte desconhecida.
Características musicais e influência cultural
Uma das músicas mais populares da banda é a faixa de abertura do álbum Da Lama ao Caos (1994), “Monólogo ao pé do ouvido (vinheta) / Banditismo por uma questão de classe”. A canção possui uma construção razoavelmente simples, mas deveras interessante pela mistura satisfatória dos elementos utilizados. Nela a voz é acompanhada por três instrumentos: duas alfaias e uma guitarra elétrica de base, substituindo o papel de um instrumento percussivo, sendo o ponto de marcação temporal da canção com uma nota que se repete durante toda a canção. Esses instrumentos são arranjados de maneira incomum, num estilo presente na maioria das músicas criadas pela banda. A canção possui um som pesado, forte e expressivo, com letra violenta, politicamente engajada, que abre o álbum em consonância com o sentimento expresso pelo manifesto.
Nos dois primeiros versos da canção, em "Modernizar o passado é uma evolução musical", temos a presença do propósito do manguebeat. Modernizar o que é considerado música tradicional não é apenas uma vontade, mas sim o fluxo natural de sua progressão. A música e a cultura tradicional são elementos dinâmicos em constante transformação e sua evolução é inevitável, não há espaço para manutenção da pureza que os antigos tanto tentavam defender, com receio de que suas raízes caíssem no esquecimento. Modernizar o passado para CSNZ é a prova de que é possível misturar elementos tradicionais como maracatu e guitarra elétrica sem que se perca o valor musical do tradicional, mas que seja renovado e modernizado entre as massas.
Em outro verso da canção temos “O homem coletivo sente a necessidade de lutar”, que fala diretamente sobre personagens históricos que, apesar de serem homens individuais, carregam em sua imagem todo um coletivo de lutas sociais de grupos marginalizados por “demônios” que querem destruir “o poder bravio da humanidade”. Os “demônios” aqui mencionados podem ser interpretados como o poder estatal enquanto aparelho repressor, que inviabiliza que parcelas da sociedade tenham acesso a direitos e garantias fundamentais, e também como a classe dominante, que está em constante conflito de interesse com os menos favorecidos. A questão de classe é mencionada em outros momentos da música, como em “ e quem era inocente hoje já virou bandido, pra poder comer um pedaço de pão todo fudido”, que alude a violência policial. Está evidente também nos versos onde são mencionados com louvor personagens como Antônio Conselheiro, líder espiritual importante na Guerra de Canudos, Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, comunidade de resistência negra à escravidão no Brasil colônia, Zapata, líder da Revolução Mexicana de 1910 contrária à ditadura imposta por Porfírio Díaz, Lampião, Maria Bonita e seu bando no cangaço brasileiro, Sandino, líder de uma das várias rebeliões que aconteceram na Nicarágua entre 1927 e 1933 contra o domínio de militares estadunidenses e Panteras Negras, partido revolucionário negro estadunidense de cunho marxista que pregava diversas reivindicações a favor da população negra pelos anos de escravidão e injustiça social. A canção se transforma em um discurso que quase defende o banditismo, seja por necessidade, por maldade, ou por questão de classe.
Os outros dois álbuns produzidos pela CSNZ também se alinham com o manifesto, usando o mangue e diversas regiões do Recife como referências de lugares a serem defendidos e cuidados. As críticas sociais e ecológicas permanecem, acompanhadas de um apelo tecnológico que não se via em uso no estado de Pernambuco.
Frente ao exposto acima, é possível concluir que o papel cultural de CSNZ na cena mangue foi essencial para a revalorização da cultura pernambucana, que estava apática e estagnada, e que Chico Science, em especial, foi peça primordial para que o movimento tomasse forma e característica. A banda não teve oportunidade de se desenvolver muito mais, uma vez que o vocalista foi vítima de um acidente de carro fatal no ano de 1997, um ano após o lançamento do segundo álbum da banda, Afrociberdelia, pico de sua carreira. Esta breve análise não cobre os álbuns posteriores a sua morte, mas, no papel de compositor, Chico Science foi uma grande perda para a banda, e certa mudança musical deve ter se seguido no decorrer dos anos seguintes.
A linguagem musical contida nas canções de CSNZ é singular e essencial, expressando certa insatisfação diante da realidade à qual Pernambuco e a sua população estavam expostos. O contexto histórico, econômico e social foi um dos principais vetores para o surgimento do movimento manguebeat. Não só a música voltou a ter vida e espaço em Pernambuco, mas artistas em demais áreas também puderam aproveitar da nova apreciação da cultura nordestina ali em voga, como o cinema, o teatro e a literatura. Como em vários outros estilos musicais surgidos no Brasil, o manguebeat teve forte influência afro-brasileira. No caso de CSNZ, essa influência pode ser notada já no nome da banda, que faz menção a Zumbi, último dos líderes do Quilombo dos Palmares. Para o público alvo da banda, jovens da periferia recifense, majoritariamente negros, Chico Science se tornara uma espécie de portavoz. CSNZ foi capaz de se fundir com elementos popularmente americanos, como hip hop e rap, absorvê-los e transformar essa mistura em algo claramente identificável como produto cultural brasileiro.
FONTES PRIMÁRIAS
Da LAMA ao Caos: Monólogo ao pé do ouvido (vinheta) / Banditismo por uma questão de classe. Rio de Janeiro: Gravadora Chaos, 1994. CD.
ZERO QUATRO, Fred. Manifesto Caranguejo com Cérebro. 1992. Disponível em: http://www.recife.pe.gov.br/chicoscience/textos_manifesto1.html. Acesso em: 22 nov. 2021.
BIBLIOGRAFIA
ASSIS, Francisco de. Para entender Chico Science & Nação Zumbi. Revista de Comunicação & Inovação, São Caetano do Sul, v. 9, n. 16.(1) jan-jun 2008.
CARVALHO, Abraão. A cidade na ótica de Chico Science.
Disponível em:
https://www.researchgate.net/profile/Abraao-Carvalho/publication/281150315_A_cidade_na_ otica_de_Chico_Science/links/55d8d1c808aeb38e8a87b6f4/A-cidade-na-otica-de-Chico-Scie nce.pdf. Acesso em: 24 set. 2021.
CARVALHO, J. P.; VIEIRA, R. Manguebeat 20 anos: Articuladores e discípulos do movimento pernambucano relembram o cenário desfavorável na sua origem e a repercussão pelo Brasil nos dias de hoje. Infográficos Estadão, 2011. Disponível em: https://infograficos.estadao.com.br/especiais/20-anos-manguebeat/. Acesso em: 20 nov. 2021.
MATIAS, Alexandre. A importância de Chico Science para a cultura brasileira é ainda maior hoje, 20 anos após sua morte. Blog do Matias, blogosfera UOL, 2017. Disponível em:
https://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/02/02/a-importancia-de-chico-science-para-a-cultu ra-brasileira-e-ainda-maior-hoje-20-anos-apos-sua-morte/. Acesso em: 20 set. 2021.
MINDURI, Loianne. Nos passos do mangue beat: rastros e ecos de uma identidade cultural desde os diálogos com os estudos culturais britânicos. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, 2016.
MOURA, Lucas. Geopoética da cena mangue: uma análise do conceito de lugar nas letras da banda Chico Science e Nação Zumbi. Universidade de Brasília. Brasília, 2014.
SNEED, Paul. The coexistentialism of Chico Science and Brazil’s manguebeat. Latin American Research Review. Disponível em: https://larrlasa.org/articles/10.25222/larr.451/. Acesso em: 27 set. 2021.
PARELES, Jon. “Chico Science, 30, Brazilian Pop Star.” New York Times, 1997. Disponível em:
http://www.nytimes.com/1997/02/05/arts/chico-science-30-brazilian-pop-music-star.html. Acesso em: 26 nov. 2021.
SOUZA, Paulo. Caminhos para uma análise de Chico Science & Nação Zumbi. Revista Intercâmbio dos Congressos Internacionais de Humanidades-ISSN 1982-9640, 2013.
SOUZA, Paulo. Um monólogo que finge polifonia: o banditismo é uma questão de classe? Herramienta, Revista de debate y crítica marxista.
Disponível em:
https://www.herramienta.com.ar/articulo.php?id=2415. Acesso em: 20 set. 2021.
SOUZA, Paulo. Experiência musical brasileira e a canção pop na década de 1990: um estudo sobre Chico Science e Nação Zumbi em perspectiva formativa. Universidade de Brasília. Brasília, 2014.
VARGAS, Herom. Hibridismos do Mangue: Chico Science e Nação Zumbi. Disponível em: http://musimid.mus.br/4encontro/files/pdf/Herom%20Vargas.pdf. Acesso em: 20 set. 2021.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. Companhia das Letras. 1989.
Comentários
Postar um comentário