Marli: "Eu vou contar uma história, você vai se surpreender..."
Luca Ligi Colferai
Letras, 4º ano
Marli foi um projeto musical formado pela cantora e compositora Marli e o produtor e compositor Antonio Augusto Farias, de nome artístico Witched, que começou oficialmente em 2002, quando ela tinha 19 anos e ele, 15. A dupla se conheceu quando Marli trabalhava como empregada doméstica na casa de Witched, em Feira de Santana, na Bahia. Marli já escrevia letras e gostava de cantar, e Witched a incentivou e propôs que fizessem música juntos. Após 14 anos, 8 álbuns, algumas compilações e álbuns de remixes, o projeto acabou quando Marli, convertida evangélica, optou, em 2016, por tirar todo seu trabalho das plataformas da internet. Hoje, há apenas um Google Drive pouco divulgado que contém toda a discografia do projeto, além dos encartes e alguns videoclipes.
Ao longo da discografia o duo explorou uma miríade de gêneros musicais. Os instrumentais dos primeiros álbuns são rudimentares, com batidas eletrônicas experimentais ou mais caricatas, pendendo para um sinistro cartunesco. Os timbres das composições parecem vir de presets (1) inalterados de instrumentos virtuais disponibilizados em programas de edição de som do começo dos anos 2000, que eram mais simples do que os de hoje. Muitas vezes, as faixas adquirem uma estética de karaokê, como se parodiassem arquétipos de diferentes gêneros musicais. Exemplos evidentes dessa característica estão em faixas como “Punk” (um rock genérico que inclui efeitos sonoros de roncos de motocicleta), “Discotheque” (um euro disco épico à la Giorgio Moroder) e o hit “Bertulina” (um bolero trágico). Mas, apesar da estética trash e da produção e performance amadoras, há algo que não harmoniza com um teor simplesmente cômico. Muitas vezes, as seções iniciais e finais das músicas são instrumentais e longas, e não parece haver intenção de se fazer um produto voltado a um nicho específico de consumo.
Nos últimos dois álbuns, Instalações Noturnas e Maremotrix, a estética sonora se torna mais séria e onírica, incluindo faixas de música ambiente. No caso de Maremotrix, a produção é a menos lo-fi de Marli. Os arranjos soam mais sofisticados, têm bastante reverb, e chegam, em alguns momentos, a uma sonoridade plenamente etérea. A exceção é “Macumba pirata”, momento mais pop do álbum, uma paródia de pop caribenho.
Capas dos álbuns, de cima para baixo: Instalações Noturnas (2010) e Maremotrix (2013).
Em meio a tantas sonoridades diferentes, o que realmente amarra a estética marliana ao longo dos anos são as performances vocais de Marli (com prosódia que se assemelha à fala, melodias monótonas, consistentemente fora do tempo da música) e o conteúdo das letras (cômicas, sombrias, sexuais, escatológicas, profanas e sagradas, muitas vezes tudo isso ao mesmo tempo).
Há uma dissonância entre a parte musical e as letras, que se dá por meio de um jogo incessante entre o cômico e o sinistro. Tal discrepância faz com que a primeira impressão do ouvinte seja de estranheza, e o faça questionar a intenção do artista — ou até mesmo se há ou não uma intenção. É como tentar decifrar uma ilusão de ótica.
Acerca da performance vocal, vale lembrar o que diz Acauam Silvério de Oliveira na tese “O fim da canção?”. Ele lembra que Luiz Tatit, em O cancionista: composição de canções no Brasil, aponta como um dos aspectos decisivos da formação da canção brasileira o
desenvolvimento de uma linguagem baseada no princípio de estabilização do modo de dizer do português brasileiro em uma forma estética que não perde de vista seu lastro entoativo. Uma melodia que não se realiza completamente enquanto tal, não deixa que voz se torne apenas um instrumento, localizando-se a meio caminho entre as dimensões prática e artística da linguagem. O amplo alcance da canção explica-se especialmente por essa capacidade de confundir-se com a própria língua, integrando nossos mecanismos psíquicos mais profundos, essencialmente constituídos pela linguagem. (OLIVEIRA, 2015)
As performances de Marli parecem se encaixar nas características descritas por Luiz Tatit. Dessa forma, ela poderia ser vista como uma intérprete essencialmente brasileira. No entanto, o grau de despretensão de que se vale Marli em suas interpretações extrapola o espectro permitido pela tradição da canção brasileira no que se refere à conciliação descrita entre melodia e entoação. Sua performatividade não é tradicional, logo, a tradição não é o suficiente para categorizá-la.
Acerca das letras das músicas, outro ponto consistente na obra marliana, é possível identificar alguns temas constantes que se manifestam de diversas formas: a violência explícita (ex: “Bertulina”); a rivalidade feminina (ex: “Te odeio”, “Ladra de namorados”, “Au revoir”, “Eu vou chopar ela”), coexistente com o enaltecimento do feminino (referências à anatomia feminina estão presentes em boa parte das letras); o sexo (tema mais presente nas letras); religião (ex: “Macumba Pirata”, “Eu gosto de louvar”, “Vulva laica”, “Sangue de galinha/ Orquídeas”); as pontuais referências eruditas (ex: Glauber Rocha, Capitu, Fausto).
A obra de Marli é um objeto relevante na história da música que existe fora de qualquer meio oficial e comercial do Brasil pós-internet. Marli ganhou popularidade por conta de alguns videoclipes que viralizaram no YouTube por volta de 2006, especialmente “Bertulina”, do álbum Colostro, o quarto da discografia. Boa parte do público presumiu que a estética trash era acidental, e que Marli não era um projeto artístico, mas uma cantora amadora em uma tentativa risível de fazer uma produção profissional.
No entanto, também houve o reconhecimento da característica conceitual da obra. Um exemplo disso está em uma matéria, também de 2006, publicada pelo G1, que identifica Marli como um projeto de uma dupla, e entrevista Witched, dando visibilidade à perspectiva do artista. Apesar de a matéria firmá-los como artistas, escancara-se outra problemática: a abordagem do jornal é enfática em relação à posição inicial de Marli como empregada doméstica, e dá a entender que, na dinâmica do duo, ela estaria em algum grau alienada do impacto pretendido por Witched. Na matéria, cujo título é “Doméstica vira sensação no YouTube com sua macumbapop”, há um trecho bastante representativo:
E quem é Marli? Ela existe, mas também não. Marli Souza Silva, 23 anos, é uma empregada doméstica de Feira de Santana e foi escolhida pelo filho de seus patrões, o universitário Antonio Augusto Farias, 19 anos, para servir de veículo para um projeto musical e visual de "trash de conteúdo", como o próprio define no site oficial de Marli. (SUZUKI, 2006)
Com o passar do tempo, o status de meme de Marli se tornou obsoleto e foi esquecido pela maioria, assim como acontece com outros memes na dinâmica da internet. O meme se tornou ainda mais esquecido devido à retirada dos conteúdos do projeto nas grandes plataformas. Os que querem escutar as músicas e assistir aos vídeos do projeto precisam buscar na internet com alguma perseverança. No site Rate Your Music, a maior plataforma colaborativa de resenhas de música da internet, os álbuns de Marli estão classificados, na maioria das vezes, em gêneros como “Art Pop”, “Ambient Pop”, “Experimental” e “Hypnagogic Pop”, e possuem palavras-chave como “sexual”, “atmosférico”, “surreal” e “satânico”. É interessante notar que o Hypnagogic Pop, por exemplo, é um designativo para um subgênero difuso, identificado em alguns artistas americanos e britânicos do fim da década de 2000 — portanto, alguns anos depois dos primeiros projetos de Marli —, e que se caracteriza, na maioria das vezes, por privilegiar recursos estilísticos da música pop datados de décadas passadas, para ressignificá-los por um viés nostálgico e crítico. O uso do rótulo para a obra marliana parece anacrônico e nortecentrado, porém diz muito sobre a percepção generalizada de que a música de Marli é vanguardista.
Talvez a resposta mais assertiva para a incógnita da música de Marli seja ausentar-se desta discussão e deixar que essa obra se direcione, sem intervenção, para um nicho, no futuro da história da música.
Nota
(1) Em sintetizadores e instrumentos musicais virtuais, os presets são timbres que já vêm programados na memória do produto. A intenção do preset é facilitar a exploração das possibilidades do instrumento pelo usuário, para que este não precise sintetizar todos os sons que queira do zero. A partir de um preset, os parâmetros estabelecidos nele (dinâmica do volume, equalização, formato da onda sonora etc.) podem ser alterados para gerar timbres customizados.
Referências
Fontes primárias
DISCOGRAFIA completa da artista. Disponível em: <https://drive.google.com/drive/u/0/folders/1q57oI7hGfVme5PhPcT8JN5VTIImbXkim>. Acesso em: 09 de jan. de 2022.
MÚSICAS mencionadas no verbete. Disponível em: <https://drive.google.com/drive/u/0/folders/1G5DzxSadspSCu2wfCC28HS5pExldMT_D>. Acesso em: 11 de jan. de 2022.
Bibliografia
CARELLI, Leon. Esconderijo: Marli. Diário da Manhã, 2015. Disponível em: <https://www.dm.com.br/cultura/2015/05/esconderijo/>. Acesso em: 09 de jan. de 2022.
FREITAS, Maria Helena Sassi. Pintura Naïve: Conceitos, Características e Análises: Quatro exemplos em São Paulo. 2011. 221 p. (Mestrado em Artes) – UNESP, Instituto de Artes, 2011. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/86976/freitas_mhs_me_ia.pdf?s equence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 09 de jan. de 2022.
OLIVEIRA, Acauam Silverio de. O fim da canção? Racionais MC's como efeito colateral do sistema cancional brasileiro. 2015. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
SUZUKI, Shin Oliva. Doméstica vira sensação no YouTube com sua macumbapop. G1, 2006. Disponível em: <https://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,AA1311517-7085,00.html>. Acesso em: 09 de jan. de 2022.
O SONHO acabou: Marli, primeira viral musical brasileira, encerra carreira sem fazer os grandes shows que merecia. Canal RIFF, 2016. Disponível em: <https://canalriff.com/2016/10/27/o-sonhou-acabou-marli-primeira-viral-musical-brasi leira-encerra-carreira-sem-fazer-os-grandes-shows-que-merecia/>. Acesso em: 09 de jan. de 2022.
OS MISTÉRIOS da Rainha Galáctica. Orquestra de Baixo Orçamento, 2013. Disponível em: <https://baixorcamento.wordpress.com/2013/12/12/os-misterios-da-rainha-galactica>. Acesso em: 09 de jan. de 2022.
Comentários
Postar um comentário