O Tropicalismo de Caetano Veloso

                                                     

             

            Heloiza Cristina Gonçalves de Souza

                                                                       Letras (Habilitação: Português/Russo) 2º ano

 

Caetano Veloso
Fonte: Vermelho

Nascido em Santo Amaro, Bahia, em 07 de agosto de 1942, Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, quinto dentre os seis filhos de Zezinho Veloso e dona Canô, mais conhecido como Caetano Veloso, lançava em meados de 1967 seu primeiro álbum, que levava seu nome como título. A obra teve papel fundamental na construção do chamado movimento Tropicalista, que surgiu ao final da década de 1960, por iniciativa de compositores baianos que possuíam uma proximidade ao cenário musical carioca e universitário e que compartilhavam a insatisfação com a música que ascendia pós bossa-nova no Brasil.

Obra Tropicália de Helio Oiticica
Fonte: UOL
Tropicália é a canção de abertura do álbum. Seu título foi sugerido pelo cineasta Luiz Carlos Barreto, com inspiração na obra Tropicália do artista plástico Helio Oiticica. Como uma espécie de “música colagem”, a composição conseguiu representar bem o Tropicalismo. Como diz o escritor Rogério Duarte: “a estética tropicalista caminhava entre ideias e mundos contrários” (MACHADO, 2012), expondo o Brasil que caminhava entre o nacionalismo e a entrada do estrangeiro. Mesmo que os tropicalistas tentassem se manter distantes de posições políticas e/ou ideológicas partidárias, era impossível ignorar a conjuntura dos conturbados anos 1960, fruto de um processo de dependência econômica moldado no país desde os anos 1950, e que se intensificou durante a Ditadura Militar. O recurso da colagem se repete durante todo o álbum, mas é em Alegria, alegria que ele vai chamar atenção. Ele é utilizado para ressaltar o individualismo do eu lírico e a exaltação do sujeito eu perante um mundo e uma realidade que aconteciam simultaneamente com sua existência .          

        Caetano em sua apresentação no III Festival de Música Brasileira
Fonte: Tribuna do Norte
Os programas de auditório tiveram seu ápice na televisão brasileira na década de 1960, enquanto a repressão da ditadura militar explodia. Refletindo o calor do público que frequentava os festivais e atrações culturais televisivas, Alegria, alegria ficou em 4º lugar no III Festival de Música Brasileira da TV Record, em 1967. A canção trazia uma harmonia construída por influência da música estadunidense e inglesa, com guitarras e efeitos eletrônicos. Sua letra demonstrava o individualismo característico da juventude das classes média/média alta, que seguia sob um sol que se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas, em cardinales bonitas (VELOSO, 1967). Como observava Tinhorão:

                       Alegria, alegria, com seus versos finais (...) colocava da forma mais clara a disposição do rompimento com as expectativas culturais e estilo de vida até então seguidos pelo autor, e que na verdade coincidia com o de tantos outros jovens da classe média dos grandes centros, desejosos de fugir pela via do individualismo, do descomprometimento político e do escapismo hippie à falta de perspectivas e mediocridade do momento histórico posterior ao movimento militar de 1964: sem lenço (porque, desligado do passado, não haveria lágrimas para secar), sem documento (uma vez que nada devia identificar o indivíduo com o sistema), nada no bolso ou nas mãos (quer dizer “sem livros e sem fuzil, ou sem responsabilidade ideológica ou política, como indicava outro verso da mesma canção), eu quero seguir vivendo/amor (ou seja, fugindo egoísta e hedonisticamente às responsabilidades sociais que desde logo - ante tantos apelos à disponibilidade total - explicava o último verso em forma de pergunta-sugestão: por que não? por que não? (TINHORÃO, 1986, p. 261).

 

Capa do álbum Caetano Veloso (1968)
Fonte: A Escotilha

Essa espécie de letra-colagem, algo nonsense (SEVERIANO, 2008: 384) como classifica o historiador Jairo Severiano é traço forte e há quem diga que o Tropicalismo de modo geral tinha um caráter muito performático, televisivo, entre outras características, mas é fato que, mesmo durando pouco mais de um ano, o movimento impactou o âmbito político e cultural do país, tal como era o objetivo dos tropicalistas. Em Superbacana, por exemplo, Veloso apresenta uma realidade de mundo que explode longe e muito longe o Sol responde, e que a moeda número um do Tio Patinhas não é minha (VELOSO, 1967), ou em Soy Loco por Ti America, canção que traz referências ao Che Guevara, assim como a relação entre todo o álbum. É fato que o álbum Caetano Veloso abriu passagem para que outros tantos compositores e compositoras pudessem ousar, ao ponto de permitir diversas maneiras de compreender e discutir sobre Tropicalismo.

 

Bibliografia:

SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira - das origens à modernidade. São Paulo, Brasil. Editora 34. 2017 (4ª Edição).

TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular - da modinha ao tropicalismo. São Paulo, Brasil. Art Editora. 1986 (5ª Edição).

TROPICÁLIA. Direção: Marcelo Machado. Produção: Brasil: Bossa Nova Films. Barueri: Imagem Filmes, 2012.

UMA NOITE em 67. Direção: Renato Terra e Ricardo Calil. Produção: VideoFilmes Produções Artística Ltda. Record Entretenimento Rio de Janeiro: VideoFilmes Produções Artística Ltda, 2010.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Clara Crocodilo (1980) - álbum de Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno

JINGLES BRASILEIROS NO SÉCULO XX: A PROPAGANDA MUSICADA

As canções de ninar na cultura popular brasileira