Sérgio Sampaio: Qual o papel de um maldito?


                                                                                                                            Gabriel de Freitas Curti 

                                                                                                                                                            

                                                                                                                   Ciências Econômicas, ano



Em meados do século XIX, surgiu uma nova corrente estética no meio musical erudito que rapidamente se espalhou pelo globo - o Nacionalismo .Ela se caracterizava pela busca de uma música com “constâncias nacionais”- o resultado da síntese da cultura nativa pelos artistas do país -. Com o Nacionalismo  inicia-se uma discussão acerca do papel do artista na formação da cultura nacional. 

Tendo como precursores Carlos Gomes (1836- 1896), Brasílio Itiberê (1846-1913), Alexandre Levy (1864-1892), Alberto Nepomuceno (1864-1920) , entre outros, o movimento ganha força  com a publicação de “Ensaio sobre a música brasileira”, em 1928, por Mário de Andrade. Sobre o papel do artista, Mário afirma:

  “Mas nesse caso um artista brasileiro escrevendo agora em texto alemão sobre assunto chinês, música da tal chamada de universal,  faz música brasileira e é músico brasileiro?. Não é não. Por mais sublime que seja, não só a obra não é brasileira como é antinacional. E socialmente o autor dela deixa de nos interessar. Digo mais: por valiosa que a obra seja, devemos repudiá-la, que nem faz a Rússia com Strawinsky e Kandinsky” ( ANDRADE, 1928,p.28)"

Na década de 1960 essa discussão opôs dois grupos, a “MPB” ou “música contestatória”, de um lado,  e a “música cafona”, de outro. Para entendermos melhor esse cenário  tomaremos emprestado um trecho de Sinal Fechado -  a música popular brasileira sob censura (1937-45 / 1969-78):

             […] "dividida em fatias pela "indústria cultural", a música popular atendia a todos os tipos de público. No entanto, uma diferença básica, centrada não exatamente na oposição "musica universitária" (ou MPB) x "música cafona" (baladas românticas,"sambão-jóia"), dividia o público ouvinte e consumidor de discos: a postura dos compositores frente ao Estado autoritário. Enquanto para os compositores e cantores da MPB havia uma preocupação latente (e em muitos casos, como vimos, até mesmo relativamente explícita, tentando acompanhar a tradição da canção de protesto dos anos 60) com a denúncia do autoritarismo, os representantes das demais denominações em que foi dividida a música popular brasileira ou ignoravam tais preocupações ou nunca deixavam que interferissem no seu trabalho artístico. (SILVA, 2008: 161)"

Nesse ambiente de intensa polarização em que toda produção artística parecia demandar um posicionamento político, Sérgio Sampaio opta pela marginalidade :- ”Fui posto de lado em tudo, marginal, enfim” (SAMPAIO, 1977). 

Dominado pela autorreflexão, as músicas do autor circundam temas sobretudo negativos, como a solidão, a miséria e a loucura. Para consumar a aura de “maldito”, soma-se a isso uma posição mais crítica da indústria fonográfica e um consequente afastamento das etapas que sucedem a criação.

Diante dessa sua opção torna-se interessante esclarecer as  premissas em que se basearam tal escolha e os impactos gerados tanto no seu tempo quanto nos dias de hoje.

Eu que sou filho de um pai teimoso:

Sérgio Moraes Sampaio nasce em Cachoeiro de Itapemirim, Espirito Santo, em 1947. Seu pai, Raul Gonçalves Sampaio, é compositor e maestro de banda da cidade, mas ganha a vida como fabricante de tamancos, e sua mãe Maria de Lurdes  é professora primária. A despeito de seu pai ser empresário, Sérgio tem uma vida humilde; a chegada das sandálias de borracha levariam seu pai à falência, e sua mãe se tornaria a única fonte de renda da família.

Aos 16 anos, Sérgio arruma seu primeiro emprego como locutor na ZYL-9 de Cachoeiro. Com o primeiro salário se muda de casa para uma república de jovens, onde aprende  com os amigos os primeiros acordes de violão e se une à vida boêmia da cidade. Sérgio toma algumas aulas com  o violonista José Nogueira, antigo professor de Roberto Carlos,  o “Zunga”, nascido também em Cachoeiro. 

Com o intuito de seguir carreira no rádio, muda-se para o Rio de Janeiro em 1967. Mora em repúblicas de estudantes e pensões baratas,  entre artistas, marginais e líderes de movimentos políticos, acompanhando de perto a repressão do período.

Tem passagem por várias rádios, entre elas a Rádio Rio de Janeiro, Rádio Relógio, Rádio Carioca e Rádio Mauá e  Rádio Tupi. Começa  sua carreira musical ao ser contratado por Raul Seixas, funcionário da CBS na época, e por essa gravadora lança seu primeiro compacto em 1971, com as canções “Coco verde”, de sua autoria, e “Ana Juan”, parceria com Odibar.

Participa do disco Sociedade Da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão Das 10 (1971), produzido por Raul Seixas. Apesar de terem algumas músicas tocadas nos rádios, Raul e Sérgio foram  duramente repreendidos pelos donos da gravadora, surpreendidos com o caráter experimentalista da obra.

Em 1972, participa do 7o Festival Internacional da Canção, da TV Globo, com a marcha-rancho “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. A canção projeta Sérgio Sampaio e garante um compacto com a gravadora Phillips. Em 1973, sai seu primeiro LP, com o mesmo nome. 

Pela Continental, grava o segundo LP, Tem que Acontecer (1976) e o compacto, Ninguém Vive por Mim / História de Boêmio (1977). Por conta de atritos pessoais com a gravadora e por falta de sucesso comercial no seu novo álbum, Sergio perde seu contrato e passa a sobreviver realizando pequenos shows no circuito alternativo carioca. 

Em 1982, com financiamento da mulher Ângela Breitschaft, grava independentemente  Sinceramente, seu terceiro álbum. Sem sucesso, volta ao ostracismo, e, em 1991, muda-se para Salvador.  Morre em 1994 aos 47 anos, vítima de uma pancreatite. 

Em 2006, o álbum Cruel , produzido e organizado por Zeca Baleiro,  reúne músicas em que Sérgio estava trabalhando quando morreu.

Ninguém vive por mim 

Um dos pontos centrais da obra de Sérgio e o foco desse verbete, como já citado, é a rejeição pelo autor das idiossincrasias dos grupos culturais hegemônicos da época acerca da produção musical, algo  que o levaria  ao isolamento no final da sua carreira. Para entendermos  esse afastamento das estruturas culturais hegemônicas da época é necessário  entendermos as influências recebidas pelo autor no começo de sua carreira. Dos elementos que marcaram sua obra, o mais claro é o movimento tropicalista. Para entendê-lo melhor, tomaremos emprestado um trecho de Tropicália, alegoria, alegoria:

                 “A mistura tropicalista notabilizou-se como uma forma sui generis de inserção histórica no processo de revisão cultural, que se desenvolvia desde o início dos anos 60. Os temas básicos dessa revisão consistiam na redescoberta do Brasil, volta às origens nacionais, internacionalização da cultura, dependência econômica, consumo e conscientização. Tais preocupações foram responsáveis pelo engajamento de grande parte dos intelectuais e dos artistas brasileiros na causa da construção de um Brasil novo, através de diversas formas de militância política. (FAVARETO, 2000, p28)”


Sua  filiação ao tropicalismo se daria primeiramente pela fusão entre a música local e a estrangeira: ao longo de sua carreira podemos observar influências de gêneros como o samba, choro, samba-canção, marchas, bluesrock, jazz, além de ritmos latinos como o tango e o bolero. Além disso, nota-se uma aproximação do cenário contestatório da  época com a música “Filme de terror”, crítica (não muito) velada aos horrores da ditadura.

     “Dura um ano inteiro, o filme de terror 

    E na rua, um sacrifício 

    No pescoço um crucifixo 

    Quem ousar sair de casa 

    Passe a tranca e feche o trinco 

    No chão do cinema Império da Tijuca 

    O cemitério do Caju

    (...)

    O meu sangue jorra e borra de terror”

Se a musicalidade de Sampaio o colocaria, em primeira instância, próximo dos tropicalistas, sua lírica o  levaria na direção oposta. Influenciado pela morbidez  de Augusto dos Anjos 1884-1914) e pela relação claustrofóbica com a sociedade que herda do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), sua obra centra-se no desnudamento do eu-lírico, que, preso numa espécie de “maldição” inconformista, é forçado a viajar para o submundo para encontrar suas próprias verdades : “Depois de algum tempo nisso ,indo no fundo e voltando pra ver, eu me descubro, amor, dentro do vício, maravilhosamente a renascer” (SAMPAIO, 1982)

No primeiro compacto lançado, a levada bossa novista da música “Coco Verde” (https://www.youtube.com/watch?v=MjQMCQlUxiM )  contrasta com os versos:

    “Tanta gente se diz dona da luz

    "Mas eu não tô nessa, não me seduz”

Aqui o autor  já começa a expor suas dissidências com os movimentos culturais hegemônicos .  Sérgio considera que a missão tropicalista da busca por um processo coletivo de pensar o país e a arte é de alguma forma presunçosa , seja por diferenças ideológicas, seja pela “maldição” à qual o autor estava submetido, que lhe  impedia de acreditar em qualquer verdade coletiva.

No disco Sociedade da Grã Ordem Kavernista, trabalho  inspirado no roqueiro americano Frank Zappa, (1940-1993), na admissão de um processo de criação experimental quase dadaísta, Sérgio e seus colaboradores (Miriam Batucada, Edy Star e Raul Seixas) lidam ironicamente com a euforia hippie, tida por eles como evasão individual . Destaca-se a música “Eu acho graça” ( https://www.youtube.com/watch?v=zOREWzlofjc ) :

   “Todos tão por dentro da jogada

    Eu não tô com nada mesmo

    Eu tô muito tranquilo

    Eu tô dizendo adeus”

Seu próximo LP, Eu quero botar meu bloco na rua, o  lançaria no cenário nacional, e sua faixa-título( https://www.youtube.com/watch?v=rsiAN__ii7E) se tornaria a música carnavalesca de 1973. 

Apesar da aproximação com o ideário popular, Sérgio não abre mão da sua lírica auto reflexiva. O resultado disso é o contraste entre o refrão catártico e as demonstrações de insegurança do eu-lírico: 

    “Há quem diga que eu dormi de touca

    Que eu perdi a boca

    Que eu fugi da briga

    Que eu caí do galho e que não vi saída

    Que eu morri de medo quando o pau quebrou

    Há quem diga que eu não sei de nada

    Que eu não sou de nada e não peço desculpas

    Que eu não tenho culpa

    Mas que eu dei bobeira

    E que Durango Kid quase me pegou

    Eu quero é botar meu bloco na rua

    Brincar, botar pra gemer

    Eu quero é botar meu bloco na rua

    Ginga pra dar e vender” 

Seu segundo LP,  Tem que acontecer, considerado pelos críticos como o ápice de sua lírica, começa com “Até outro dia”( https://www.youtube.com/watch?v=Rw1tCb-D9B0 ), canção que enfatiza a valorização da individualidade pelo autor:

    “Quem manda em mim sou eu

Quem manda em você é você
Por isso eu quero pedir
Pra você se mandar
Até outro dia, em outro lugar”


“Que loucura”( https://www.youtube.com/watch?v=daHR 2Sp qc0), do mesmo álbum, regristra as idas e vindas veladas de seu amigo Torquato Neto, um dos papas do tropicalismo, ao hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro: 

    “Fui internado ontem
    Na cabine 103
    Do hospital do Engenho de Dentro
    Só comigo tinham dez

    Eu 'tô doente do peito
    Eu tô doente do coração
    A minha cama já virou leito
    Disseram que eu perdi a razão

    Eu tô maluco da idéia
    Guiando carro na contramão
    Saí do palco, fui pra platéia
    Saí da sala e fui pro porão”

“Ninguém vive por mim” ( https://www.youtube.com/watch?v=_Ol-sxAX0KE ), uma das canções mais emblemáticas da obra de Sergio, nos convida a conhecer, através de metáforas, esse lugar “maldito”, onde a incompreensão, o preconceito e a solidão imperam. Além disso, discute sua posição em relação ao processo criativo: sua miséria é consequência da sua busca corajosa pela verdade: “Fui procurar viver além de mim”. Termina expondo uma espécie de contentamento com sua condição: apesar da sua miséria reconhece o valor de sua busca, e se enxerga coerente com seus valores :“ Vivo o que sou, ninguém vive por mim”.

Seu terceiro  e último LP lançado em vida, Sinceramente não alcança sucesso comercial. Dispõe, no entanto, de canções emblemáticas e coerentes com o projeto artístico de Sampaio, como “Homem de trinta”(https://www.youtube.com/watch?v=wiB2icwsYm8):

    “Quase que eu fui pro buraco

    Por pouco não fui morar no porão

    Dancei mas não sei não

    Tive cuidado

    De ter os pés quase sempre no chão

    E a cabeça voando como se voa na imaginação

    Longe do resto do bando

    Mas sempre perto do meu coração”


 “Cruel”, lançada postumamente e gravada por Luiz Melodia, pode ser vista como o último grito contestatório de um artista que viveu e morreu em busca da sua verdade. A música sintetiza em poucos versos os temas centrais da obra de Sampaio: a desconfiança das estrutura hegemônicas  (“o que eles falam nem se deve ouvir” ) e o fatalismo do processo criativo auto-reflexivo (“marginal que não pode mais fugir vai reagir”)

    “Tudo cruel, tudo sistema

    Torre babel, falso dilema

    (...)

    O que eles falam não se deve nem ouvir 

    Verbo mentir 

    Menino é bom ficar de olho ai 

    (...)

    um marginal que já não pode mais fugir  

    vai reagir.“   

Eu sou aquele que disse

Diante da trajetória do autor, fica claro por que lhe ariburam o titulo de maldito. A palavra era usada não no sentido pejorativo, como sinônimo de perverso, malvado, mas sim para designar alguém dotado de uma “maldição”, a maldição da busca por uma verdade própria, absoluta pela sua singularidade. 

Essa necessidade de expressão da sua originalidade era tamanha, como identificamos, que precisou ser feita à margem dos movimentos vanguardistas da época, pois não era uma releitura política, era uma releitura do “ser”. Sergio transcende movimentos e racionalizações e mergulha diretamente no âmago das suas (e das nossas) insatisfações. 

Escapando da armadilha da dissolução da individualidade que um coletivo pode proporcionar, alcança uma voz mais original que dialoga curiosamente mais com a nossa sociedade atual do que com aquela em que vivia.

Argumento, por fim,  que esse é o lugar do “maldito”: aquele que toma para si o trabalho ingrato e solitário de se exorcizar em busca do que acredita, na esperança de que no futuro sua obra ressoe com alguém, e que essa pessoa seja confortada ao saber que todo mundo, às vezes,  se sente

    “Como um rato de bueiro, como um gato de calçada
    Velho mendigo da rua, cão de butiquim
    Disse adeus e fui embora, nada é mais ruim
    O pior dos temporais aduba o jardim”  (SAMPAIO, 1976).







 







Bibliografia: 

FAVARETTO, Celso Fernando. Tropicália, alegoria, alegoria. 3ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000

SILVA, Alberto Moby Ribeiro da. Sinal fechado: a música popular brasileira sob censura (1937-45 / 1969-78). Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.

ARAÚJO, Luís André Bezerra de. Sérgio Sampaio e a paródia tropicalista em Eu quero é botar meu bloco na rua. 2009. 165 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Universidade Federal da Paraí­ba, João Pessoa, 2009.

MOREIRA, Rodrigo. Eu quero é botar meu bloco na rua. 3 Edição. Niterói: Muiraquitã, 2000.

PRUDÊNCIO. Washington Luís. Sérgio Sampaio : Antitropicalismo na canção de um tropicalista convicto. Trabalho de conclusão de graduação. Curso de letras - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Porto Alegre, 2010.

SÉRGIO Sampaio. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa532306/sergio-sampaio. Acesso em: 17 de novembro de 2021. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.


Discos:

SAMPAIO, Sérgio. Eu quero é botar meu bloco na rua. Rio de Janeiro: Philips, 1973. 1 disco sonoro (ca. 39 min), 33 1/3 rpm, 12 pol.

SAMPAIO, Sérgio. Série Warner 25 anos. Manaus: Warner, p. 2002. 1 CD (ca. 50 min)

SAMPAIO, Sérgio. Coco verde/Ana Juan. Rio de Janeiro: CBS, 1971 a. 1 disco sonoro (ca 08 min.) 33 1/3 rpm, 7 pol.

SAMPAIO, Sérgio. Classificados nº 1/Não adianta. Rio de Janeiro: CBS, 1971b. 1 disco sonoro (ca 07 min.) 33 1/3 rpm, 7 pol.

SAMPAIO, Sérgio. Meu pobre blues/Foi ela. Rio de Janeiro: CBS, 1974. 1 disco sonoro (ca. 09 min.) 33 1/3 rpm, 7 pol.

SAMPAIO, Sérgio. Ninguém vive por mim/História de boêmio (Um abraço em Nélson Gonçalves). Rio de Janeiro: Continental, 1977. 1 disco sonoro (ca. 07 min.) 33 1/3 rpm, 7 pol.


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